domingo, 24 de outubro de 2010

O Que Será (A flor da Terra)

O Que Será (A flor da Terra)

Chico Buarque

Composição: Chico Buarque & Milton Nascimento

O que será que será Que andam suspirando Pelas alcovas? Que andam sussurrando Em versos e trovas? Que andam combinando No breu das tocas? Que anda nas cabeças? Anda nas bocas? Que andam acendendo Velas nos becos? Estão falando alto Pelos botecos E gritam nos mercados Que com certeza Está na natureza Será, que será? O que não tem certeza Nem nunca terá! O que não tem concerto Nem nunca terá! O que não tem tamanho...

O que será? Que Será? Que vive nas idéias Desses amantes Que cantam os poetas Mais delirantes Que juram os profetas Embriagados Está na romaria Dos mutilados Está nas fantasias Dos infelizes Está no dia a dia Das meretrizes No plano dos bandidos Dos desvalidos Em todos os sentidos Será, que será? O que não tem decência Nem nunca terá! O que não tem censura Nem nunca terá! O que não faz sentido...

O que será? Que será? Que todos os avisos Não vão evitar Porque todos os risos Vão desafiar Porque todos os sinos Irão repicar Porque todos os hinos Irão consagrar E todos os meninos Vão desembestar E todos os destinos Irão se encontrar E mesmo padre eterno Que nunca foi lá Olhando aquele inferno Vai abençoar! O que não tem governo Nem nunca terá! O que não tem vergonha Nem nunca terá! O que não tem juízo.
E, por fim, pode-se atribuir à música uma crítica ao sistema vigente da época, mais propriamente à corrupção e degradação do sistema ditatorial, enaltecendo o desejo e o ímpeto do ser humano de poder expressar seus ideais livremente, da vontade de botar pra fora toda a sua indignação com tudo àquilo que não achar correto. Como sabemos, no período em que “O Que Será” foi escrita, diversos compositores – inclusive o próprio Chico – sofreram nas mãos dos censores no afã de mostrarem suas obras. Na minha opinião “O Que Será”, possivelmente, é uma obra que trata da liberdade em seu estado pleno, quer seja na forma de agir, de se expressar ou até de pensar. A música busca aquela vontade de quem está sob jugo de ter a sua voz ouvida, não cerceada. De ter o direito de “berrar” nos mercados, nas passeatas, nas alcovas, enfim, na natureza como um todo. Possivelmente o título (O que será) também traz embutida uma pergunta (O que será?), que repetida à exaustão durante a música, sucinta nas pessoas exatamente a dúvida de seu real significado: que ela (a pergunta) foi introduzida de uma forma que passasse sua mensagem de maneira subliminar, e que, mesmo não tendo a “autorização” dos censores, ela ficaria, de alguma forma, incrustada no subconsciente das pessoas.
A outra letra
O que será que me dá que me bole por dentro Será que me dá Que brota a flor da pele será que me dá E que me sobe as faces e me faz corar E que me salta aos olhos a me atraiçoar E que me aperta o peito e me faz confessar O que não tem mais jeito de dissimular E que nem é direito ninguém recusar E que me faz mendigo me faz implorar O que não tem medida nem nunca terá O que não tem remédio nem nunca terá O que não tem receita O que será que será Que dá dentro da gente que não devia Que desacata a gente que é revelia Que é feito uma aguardente que não sacia Que é feito estar doente de uma folia Que nem dez mandamentos vão conciliar Nem todos os unguentos vão aliviar Nem todos os quebrantos toda alquimia Que nem todos os santos será que será O que não tem descanso nem nunca terá O que não tem cansaço nem nunca terá O que não tem limite O que será que me dá Que me queima por dentro será que me dá Que me perturba o sono será que me dá Que todos os ardores me vem atiçar Que todos os tremores me vem agitar E todos os suores me vem encharcar E todos os meus nervos estão a rogar E todos os meus órgãos estão a clamar E uma aflição medonha me faz suplicar O que não tem vergonha nem nunca terá O que não tem governo nem nunca terá O que não tem juízo
Música feita para o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos” de Bruno Barreto. Há quem diga que a música fala de sexo, desejo e sensações humanas incontroláveis. Mas a melhor versão é a de que fala de liberdade. A liberdade que todas as pessoas queria gritar aos quatro ventos naqueles tempos repressivos. Mas há uma curiosidade: nem o próprio Chico Buarque sabe o que pode estar por trás da canção. Ao saber, em 1992, de uma ficha do extinto DOPS analisando versos de “O que Será” ele declarou ao Jornal do Brasil: “acho que eu mesmo não sei o que existe por trás dessa letra e, se soubesse, não teria cabimento explicar...". Então, deixemos sem maiores explicações....!