Composição: Chico Buarque & Milton Nascimento O que será que será
Que andam suspirando
Pelas alcovas?
Que andam sussurrando
Em versos e trovas?
Que andam combinando
No breu das tocas?
Que anda nas cabeças?
Anda nas bocas?
Que andam acendendo
Velas nos becos?
Estão falando alto
Pelos botecos
E gritam nos mercados
Que com certeza
Está na natureza
Será, que será?
O que não tem certeza
Nem nunca terá!
O que não tem concerto
Nem nunca terá!
O que não tem tamanho...
O que será? Que Será?
Que vive nas idéias
Desses amantes
Que cantam os poetas
Mais delirantes
Que juram os profetas
Embriagados
Está na romaria
Dos mutilados
Está nas fantasias
Dos infelizes
Está no dia a dia
Das meretrizes
No plano dos bandidos
Dos desvalidos
Em todos os sentidos
Será, que será?
O que não tem decência
Nem nunca terá!
O que não tem censura
Nem nunca terá!
O que não faz sentido...
O que será? Que será?
Que todos os avisos
Não vão evitar
Porque todos os risos
Vão desafiar
Porque todos os sinos
Irão repicar
Porque todos os hinos
Irão consagrar
E todos os meninos
Vão desembestar
E todos os destinos
Irão se encontrar
E mesmo padre eterno
Que nunca foi lá
Olhando aquele inferno
Vai abençoar!
O que não tem governo
Nem nunca terá!
O que não tem vergonha
Nem nunca terá!
O que não tem juízo.
E, por fim, pode-se atribuir à música uma crítica ao sistema vigente da época, mais propriamente à corrupção e degradação do sistema ditatorial, enaltecendo o desejo e o ímpeto do ser humano de poder expressar seus ideais livremente, da vontade de botar pra fora toda a sua indignação com tudo àquilo que não achar correto.
Como sabemos, no período em que “O Que Será” foi escrita, diversos compositores – inclusive o próprio Chico – sofreram nas mãos dos censores no afã de mostrarem suas obras. Na minha opinião “O Que Será”, possivelmente, é uma obra que trata da liberdade em seu estado pleno, quer seja na forma de agir, de se expressar ou até de pensar.
A música busca aquela vontade de quem está sob jugo de ter a sua voz ouvida, não cerceada. De ter o direito de “berrar” nos mercados, nas passeatas, nas alcovas, enfim, na natureza como um todo.
Possivelmente o título (O que será) também traz embutida uma pergunta (O que será?), que repetida à exaustão durante a música, sucinta nas pessoas exatamente a dúvida de seu real significado: que ela (a pergunta) foi introduzida de uma forma que passasse sua mensagem de maneira subliminar, e que, mesmo não tendo a “autorização” dos censores, ela ficaria, de alguma forma, incrustada no subconsciente das pessoas.
A outra letra
O que será que me dá que me bole por dentro
Será que me dá
Que brota a flor da pele será que me dá
E que me sobe as faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo me faz implorar
O que não tem medida nem nunca terá
O que não tem remédio nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente que não devia
Que desacata a gente que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos toda alquimia
Que nem todos os santos será que será
O que não tem descanso nem nunca terá
O que não tem cansaço nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro será que me dá
Que me perturba o sono será que me dá
Que todos os ardores me vem atiçar
Que todos os tremores me vem agitar
E todos os suores me vem encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem juízo
Música feita para o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos” de Bruno Barreto. Há quem diga que a música fala de sexo, desejo e sensações humanas incontroláveis. Mas a melhor versão é a de que fala de liberdade. A liberdade que todas as pessoas queria gritar aos quatro ventos naqueles tempos repressivos. Mas há uma curiosidade: nem o próprio Chico Buarque sabe o que pode estar por trás da canção. Ao saber, em 1992, de uma ficha do extinto DOPS analisando versos de “O que Será” ele declarou ao Jornal do Brasil: “acho que eu mesmo não sei o que existe por trás dessa letra e, se soubesse, não teria cabimento explicar...". Então, deixemos sem maiores explicações....!